Expostos

Documentação relacionada com os Expostos no Arquivo Municipal de Sousel

Expostos

Sabia que existe no Arquivo Municipal de Sousel documentação relacionada com os Expostos?

A 10 de maio de 1783 o Intendente da Polícia Pina Manique, mandou criar a Roda dos Expostos com o objetivo de evitar a morte de muitos enjeitados. Na Roda eram deixadas as crianças cujos pais eram pobres ou aquelas que eram consideradas indesejadas. No entanto, podemos constatar pelos registos que estas crianças continuavam a ser “abandonadas” junto de pessoas de referência para o/a progenitora.

Normalmente as crianças eram deixadas com um enxoval, objetos ou símbolos religiosos, representações de santos, orações e pequenos bilhetes que estão anexados aos registos. Estes bilhetes designados como “sinais” acompanhavam o exposto e continham indicações ou recomendações, tais como a data e hora do nascimento, o nome pretendido para a criança e quem deveriam ser convidados para padrinhos. O abandono ocorria normalmente nas primeiras horas de vida ou no dia seguinte. Em alguns casos, os pais biológicos tentavam recuperar a criança mais tarde.

O Arquivo Municipal tem à sua guarda documentação sobre os expostos do Concelho. Destacamos os livros de Termos de Apresentação dos Expostos (1884-1915), pertencentes ao Fundo da Câmara Municipal de Sousel. Nestes Termos é descrita a data em que a criança é encontrada, o sexo da mesma, as suas condições físicas, as peças de enxoval que a acompanhavam, assim como a ama-de-leite que ficava responsável pela sua criação.
Cod. Ref.ª – PT/AMSSL/CMS/P/A/001
Cota – AH/S1/E4/P21

Amas-de-leite

Os recém-nascidos abandonados na Roda dos Expostos eram entregues a amas-de-leite que, para além de os amamentarem, ficavam responsáveis pelo seu bem-estar. Entre as muitas obrigações impostas a estas amas estava a de garantir o bem-estar das crianças, levando-as ao médico sempre que necessário e encaminhando-as para a escola quando completassem 7 anos. Em caso de falecimento, deveriam apresentar a criança ao médico para que este passasse o atestado de óbito.

Estas amas recebiam um pagamento que tinha como objetivo ajudar na criação da criança. Na altura de receber o pagamento, as amas tinham que provar que as crianças entregues à sua responsabilidade eram bem tratadas, caso contrário era-lhes recusado o pagamento.

No dia do pagamento, as amas tinham que se fazer acompanhar da criança para ser examinada pelo médico ou então de um atestado passado pelo pároco, onde este declarava que a criança estava viva e era bem tratada.

Os expostos que tinham a sorte de sobreviver para além do período de amamentação, eram depois entregues às chamadas amas-de-seco até fazerem 7 anos. A partir desta idade passavam para a responsabilidade das Juntas Gerais de Distrito, até completarem os 18 anos.

Após a extinção das Juntas Gerais de Distrito, as respetivas atribuições foram transferidas para o Estado e para as Câmaras, passando os maiores de 7 anos, para a tutela municipal.

Cod. Ref.ª – PT/AMSSL/CMS/P/A/002

João Batista Borges

Primeiro Ardina Português. Mais tarde, Redator Principal do jornal Diário de Notícias.

Não se sabe quem foram os pais de João Baptista Borges. O pequeno João Baptista começou a vida da pior forma possível – sem o apoio e o carinho dos pais, como o prova o registo de batismo no Livro de Registos de Batismos da Paróquia de Sousel, referente ao ano de 1850.

Na margem direita do registo consta o nome próprio e a palavra exposto – que significa que foi abandonado ou enjeitado pelos pais. O pároco João Alberto Teixeira refere no registo, datado de 14 de julho de 1850, que o pequeno João era filho de pais incógnitos. Os padrinhos, que decerto o criaram, foram João Caxudo e Joanna Victória.

Em 1861 ou 1862[1], com 11 ou 12 anos, desconhecendo-se como e com quem, foi para Lisboa “a fim de seguir a vida comercial e, à semelhança do que sucedera com Eduardo Coelho, seu mestre, e por influência deste, mudou de carreira e seguiu a das Letras, depois de haver frequentado, alguns meses antes, a escola de aprendizagem tipográfica na Tipografia Universal, do falecido conde de S. Marçal, Tomás Quintino Antunes” (Reis, 2011). “Ao mesmo tempo cursava a Escola da Associação Civilização Popular, vindo mais tarde a entrar para a Escola de Belas-Artes. Durante trinta anos colaborou e redigiu no Diário de Notícias, dando provas do seu labor e talento. Entre elas destaca-se um romance original, O Rouxinol da Ópera, publicado em folhetins. Em manuscrito deixou alguns trabalhos, sendo o principal uma comédia, O Filho da Minha Mulher e ainda um drama popular em 5 actos” (Reis, 2011). “Em 1870, era admitido na Revisão do Diario de Notícias, ao lado de Silva e Albuquerque, o grande apóstolo dos princípios associativos. D’ahi passou, em 1872, para a Redacção” (Cunha, 1914).

No entanto, o seu início em Lisboa não foi muito prometedor. Nas palavras do próprio Eduardo Coelho, “Um órfão que eu acolhera na minha própria casa, de seu nome João Baptista Borges, ofereceu-se para vender o Diário de Notícias nas ruas, apregoando-o pela cidade inteira. Assim o fez, e foi apedrejado. Mas tornou-se o primeiro ardina em Portugal[2]. Baptista Borges fazia-o descalço, e ainda por cima era apedrejado, porque os quiosques de venda de jornais não toleravam que um novo jornal, quatro vezes mais barato que os outros, lhes estragasse os negócios. Os jornais eram apregoados a plenos pulmões e vendidos pelas ruas a troco de uma comissão de 200 a 400 réis (Rodrigues, 2014). De entre eles destacou-se João Baptista Borges, que chegou a ser redator, editor e folhetinista (Rodrigues, 2014). João Baptista Borges foi vendedor, revisor, redator efetivo e editor responsável do DN (Freire, 1939).

[1] 1864 foi o ano da fundação do Diário de Notícias, sendo que João Baptista Borges foi de Sousel para Lisboa uns dois ou três anos antes da fundação do jornal.
[2] Citação do próprio Eduardo Coelho, cofundador e primeiro diretor do Diário de Notícias, (Foyos, 2014, p. 140; Figueira, 2015).

RESUMO EXTRAÍDO DA OBRA:
Richau, J. (2022) Escritores do Concelho de Sousel – autores de conteúdos escritos publicados [1516 a 2021]. Bubok Publishing, Madrid. (A editar brevemente)

(nasceu em Sousel: 17/06/1850 – faleceu em Lisboa: 9/09/1903)

Estátua de João Baptista Borges, quando criança, a distribuir o Diário de Notícias, e busto de Eduardo Coelho, seu protetor – Jardim de S. Pedro de Alcântara, em Lisboa.

PARA SABER MAIS:
Cunha, A. (1914) Diario de Noticias – A sua fundação e os seus fundadores – Alguns factos para a historia do jornalismo português. Edição comemorativa do cincoentenário do Diario de Noticias. Diario de Noticias, Lisboa.
Freire, J.P. (1939) O Diário de Notícias – da sua fundação às bodas de diamante, 2º Volume. Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa.
Reis, L. (2011) Personalidades Artísticas – Século XX – 1º Volume. Fonte da Palavra, Lisboa.
Rodrigues, A.J.S. (2014) Jornalismo Digital – A experiência no Diário de Notícias. Relatório de estágio de mestrado em Comunicação e Jornalismo, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra.

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